Por que continuamos presos aos mesmos padrões?
- Suellen Dias
- há 5 dias
- 3 min de leitura
Como psicóloga, existe algo que observo quase todos os dias na clínica:
A maioria das pessoas não sofre porque falta inteligência, força de vontade ou boas intenções.
Elas sofrem porque continuam agindo de acordo com crenças que nem percebem que possuem.
Imagine, por exemplo, alguém que deseja muito mudar de emprego.
Essa pessoa passa horas olhando vagas.
Conversa sobre a vontade de mudar.
Imagina como seria sua vida em uma nova posição.
Mas quando surge uma oportunidade interessante, ela não se candidata.
A justificativa parece bastante razoável:
"Provavelmente não sou qualificado o suficiente."
"Vão escolher alguém melhor."
"Não tenho experiência suficiente."
À primeira vista, parece apenas falta de confiança.
Mas, muitas vezes, existe algo mais profundo acontecendo:
Uma crença.
E as crenças são poderosas porque não influenciam apenas a forma como pensamos.
Elas influenciam a forma como agimos.
As regras invisíveis que carregamos
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), entendemos que muitas dificuldades emocionais estão relacionadas a crenças profundas sobre nós mesmos.
Essas crenças costumam se desenvolver ao longo da vida e se tornam tão familiares que passam a ser percebidas como verdades absolutas.
Três das mais comuns são:
"Eu não sou digno de amor." (Desamor)
Pessoas que carregam essa crença costumam ter medo de rejeição, abandono ou desaprovação.
Por isso, podem evitar conflitos, ter dificuldade para estabelecer limites ou colocar constantemente as necessidades dos outros acima das próprias.
Imagine alguém que está magoado com uma atitude do parceiro, mas não fala sobre isso.
Não porque o assunto não seja importante.
Mas porque, em algum lugar dentro de si, acredita que expressar suas necessidades pode ameaçar a relação.
Ironicamente, ao permanecer em silêncio, essa pessoa reforça a crença de que suas necessidades não importam.
"Eu não sou bom o suficiente." (Desvalor)
Essa crença costuma aparecer por trás do perfeccionismo, da autocrítica excessiva e do medo de errar.
A pessoa evita se candidatar a uma promoção, iniciar um projeto ou perseguir um sonho porque acredita que não será capaz.
O problema é que ela nunca reúne evidências que contradigam essa crença.
Ela não fracassa.
Mas também não cresce.
E cada oportunidade perdida se transforma em mais uma prova de que ela realmente não era boa o suficiente.
"Eu não sou capaz de lidar com a vida." (Desamparo)
Pessoas com essa crença costumam subestimar a própria capacidade de enfrentar desafios.
Podem depender excessivamente da opinião dos outros, evitar mudanças ou permanecer em situações que já não fazem sentido porque acreditam que não conseguirão lidar com as consequências.
Imagine alguém que passa anos pensando em mudar de carreira.
Pesquisa cursos.
Busca conselhos.
Planeja.
Espera o momento ideal.
Mas nunca dá o primeiro passo.
Não porque lhe falte potencial.
Mas porque acredita que não conseguirá lidar com o que vem depois.
Por que essas crenças são tão difíceis de mudar?
Aqui está a parte mais interessante:
A maioria das crenças não permanece porque é verdadeira.
Ela permanece porque nossos comportamentos a protegem.
Se você acredita que será rejeitado e evita se aproximar das pessoas, nunca descobrirá se essa crença é realmente verdadeira.
Se acredita que não é capaz e evita desafios, nunca descobrirá do que é capaz.
Se acredita que não merece amor e esconde suas necessidades, nunca saberá como seria expressá-las de forma saudável.
Sem perceber, muitas pessoas passam anos acumulando evidências que confirmam suas crenças, enquanto evitam justamente as experiências que poderiam questioná-las.
A boa notícia
Crenças podem mudar.
Mas raramente mudam apenas porque decidimos pensar diferente.
Na maioria das vezes, a mudança começa quando estamos dispostos a agir de forma diferente.
Quando assumimos um pequeno risco.
Quando colocamos um limite.
Quando enviamos o currículo.
Quando temos uma conversa difícil.
Quando tentamos algo novo apesar do medo.
Porque, às vezes, a única forma de descobrir que uma crença está errada é parar de obedecê-la.
E talvez essa seja uma das partes mais importantes da terapia:
Não convencer alguém de que é capaz, digno de amor ou valioso.
Mas ajudá-lo a construir suas próprias evidências de que sempre foi.
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