O conforto desconfortável de não arriscar
- Suellen Dias
- 22 de jan.
- 2 min de leitura
Existe um tipo de conforto que não traz paz, não traz alegria e não promove crescimento, mas, ainda assim, mantém muitas pessoas paralisadas. É o conforto desconfortável de permanecer onde se está, mesmo infeliz, por medo do novo.
Muitas pessoas não estão bem com suas escolhas, seus relacionamentos ou suas rotinas. Sabem que algo precisa mudar. Sabem que existem outras possibilidades. Ainda assim, não conseguem agir. Não porque não percebem o sofrimento, mas porque o desconhecido parece mais ameaçador do que a dor já conhecida.
Do ponto de vista psicológico, isso faz sentido. O cérebro humano prefere o previsível ao saudável. O que é familiar gera menos ativação do sistema de ameaça, mesmo quando é doloroso. O novo, por outro lado, ativa ansiedade, medo e sensação de perda de controle.
Com o tempo, o sofrimento passa a ser "seguro". A pessoa aprende a lidar com aquela dor específica. Ela sabe o que esperar, como se adaptar, como se proteger minimamente. Já o novo traz uma dor sem nome - e isso assusta.
Na clínica, é comum ouvir frases como:
"Eu sei que não estou feliz, mas pelo menos eu sei como é."
"Tenho medo de mudar e me arrepender."
"E se eu tentar e der errado?"
Essas falas revelam que o medo não é apenas da mudança em si, mas do fracasso, da culpa, da decepção e, muitas vezes, de assumir a própria responsabilidade pela própria vida.
Exemplos clínicos sutis
Relacionamentos: Uma pessoa permanece em um relacionamento insatisfatório há anos. Não se sente vista, nem escolhida, mas pensa: "já investi demais", "não sei ficar sozinha", "e se não encontrar alguém melhor?", "já estou velha demais para recomeçar". O vínculo não traz alegria, mas traz previsibilidade.
Trabalho: Outra pessoa odeia sua rotina profissional, vive exausta e frustrada, mas não se permite buscar algo diferente. A ideia de recomeçar ativa pensamentos como: "não sou capaz", "já deveria estar realizada", "não posso errar agora".
Vida pessoal: Há também quem viva no automático, adiando decisões importantes, cuidando de todos ao redor, mas se abandonando. A vida segue, mas a sensação é de estar apenas sobrevivendo.
Em todos esses casos, não agir parece mais seguro do que agir. Mas essa "segurança" pode gerar sentimentos de apatia, ressentimento, tristeza crônica e a sensação de uma vida não vivida.
É importante lembrar: não escolher também é uma escolha. Permanecer onde se está constrói um caminho - mesmo que silenciosamente.
O papel da terapia
A terapia não empurra ninguém para mudanças impulsivas. Ela ajuda a:
diferenciar medo real de medo aprendido
compreender crenças que sustentam a paralisia
ampliar a percepção de escolhas possíveis
construir movimentos pequenos e possíveis, com metas alcançáveis
Mudar não exige ausência de medo. Exige consciência, responsabilidade emocional e suporte. Às vezes, o primeiro passo não é mudar tudo - é parar de se abandonar.
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